As fendas no solo árido. A disjunção de um material antes coeso. A nova forma gerada pela ruptura do solo, um novo material, um vazio que só existe porque ao seu redor não há vazio. A fratura de uma superfície plana, que gera novas formas com diferentes dimensões e formatos irregulares; a geração de uma irregularidade que é, de certa maneira, simétrica. Me interessa a transformação da linearidade pacífica do terreno bem resolvido em uma descontinuidade multifacetada, problemática, mais complexa e mais enriquecida.
Minha pesquisa composicional tem sido conduzida no sentido de perscrutar o tempo na música e seus desdobramentos, especialmente no que concerne à forma, à memória, percepção e consequentemente ao “estilo”- que não inocentemente remete a outras questões não imediatas à música, mas veladamente relacionadas à postura artística e política de um compositor. Outro fator que fundamenta a minha atual pesquisa composicional é a geração de materiais à partir da idéia do movimento corporal que o intérprete teria de realizar. Isto me aproxima dos instrumentos musicais com os quais estou lidando e me proporciona mais clareza em relação ao que seria ou não possível de se fazer no/com o instrumento, além de ser um bom ponto de partida para pesquisar técnicas não-ortodoxas, uma vez que a minha relação com os instrumentos (exceto talvez o piano) não está viciada em anos e anos de “boa” prática e consequentemente de um condicionamento, uma visão perfeccionista porém mais limitada das capacidades de um instrumento musical.
No caso de “Fendas”, obra encomendada pelo ibrasotope, eu procurei trabalhar com a manipulação do tempo e os desdobramentos decorrentes deste ponto de partida, tais quais: continuidade e descontinuidade; diferenciação entre fragmentação e descontinuidade; a pesquisa em relação às diferente possibilidades de representação/interpretação de um “corte musical”; interrupções; adensamentos e rarefação de materiais e a inserção de novos materiais verticais dentro dos adensamentos e rarefações horizontais; a percepção e manipulação de estruturas muito longas e muito curtas; a multiplicidade sincronizada de materiais distintos; a repetição dessincronizada de materiais assemelhados; as dualidades óbvias e as transições sutis entre dualidades menos aparentes; transformações perceptíveis ou imperceptíveis…
Partindo da idéia abstrata das fendas no solo, pensei em criar duas estruturas fundamentais: uma que fosse primeiramente estipulada, mostrando o potencial de ser contínua e/ou direcional e outra com um potencial de corte, ruptura.
- compassos 1 a 24) uma linha pontilhada que gradualmente se transforma em uma linha contínua, que progressivamente se revela como a soma de duas frases complementares.
- compassos 25) os dois primeiros materiais de ruptura: percutir todas as cordas com a palma da mão; alavanca sucedendo o golpe percussivo ou 3 notas com pizz Bartók.
- compassos 26 a 35) tentativa de avanço do material linear (com pizz Bartók, mão esquerda tocando no braço da guitarra, pizz Bartók+harmônico) sendo interrompido pelo material de ruptura. Neste aspecto, pensei em estruturas que são demolidas e reconstruídas ciclicamente, cada reconstrução é influenciada pelo que antes a constituía e também pela contaminação do que a fez ser destruída.
Linearidade+Ruptura se transformando em uma nova topografia, mista.
- compassos 36 a 40) novo material, linear mas “atemporal”, advindo das fagulhas da nova topografia; memória de um evento passado reativada por um acaso; nostalgia (molto vibrato em ambas as mãos + som vindo “de outro lugar”, que não da própria guitarra; entrada da primeira gravação).
- compassos 41 e 42) tentativa de avanço de um novo material linear, desta vez por adensamentos (palheta em 1, depois 2, 3 e finalmente todas as 6 cordas); material de ruptura (pizz Bartók e pizz Bartók seguido de mão esquerda tocando no braço) com menos potencial. Estipulada uma nova linearidade, não pacífica, mas direcional.
- compassos 44, 46, 48, 55-58) outro tipo de ruptura, desta vez amena.
- compasso 45) um “gesto burguês” abortado; memória e nostalgia.
- compasso 49) duas linearidades mutuamente se rompendo; esta idéia é um resumo dos compassos 100-105; tentativa de reativação da memória através de uma repetição não linear, aperiódica, fragmentada, ancorada na lembrança de um gesto físico marcante.
- compasso 50, 54, 67, 69, 71, 85, 89, 114, 115, 117, 119, partes dos compassos 124 a 126) fragmentação dos compassos 36-40. Material linear transformado em material de ruptura; tentativa de eliminar a dualidade entre linearidade e ruptura.
- compasso 51 a 53) jogo entre as notas que compõe os compassos iniciais da peça para constituir um material contínuo em seu interior, mas com um contorno irregular; ideia de transmitir a sensação de “cascata”, como pode ocorrer no interior de uma fenda no solo.
- compasso 54) entrada da segunda gravação.
- compasso 59 a 66) dois materiais de ruptura sendo interrompidos mutuamente; entrada da terceira gravação. À partir deste ponto a relação de simetria se torna mais clara.
Depois da entrada da terceira gravação, onde tentei criar sons mais “concretos”, comecei um processo gradual de inserção de objetos e de técnicas para provocar sons mais mecânicos na guitarra, buscando, também na guitarra, sons mais concretos. Utilização de: escova, palma da mão friccionando as cordas, molto vibrato, palheta, canivete e slide usado de 3 maneiras diferentes: percussivamente (com cordas abafadas ou não) com deslocamento vertical e com deslocamento circular.
- compasso 67-71) fragmentação e reinterpretação dos compassos 36-40 permutados com fricção da escova; quarta gravação entra no compasso 67, fundindo dois materiais fragmentados; molto vibrato e escova.
- compassos 72-85) mesmo procedimento dos compassos 67-71, apoiado na ideia de simetria e uma dualidade rarefeita; palheta e fricção da palma da mão nas cordas.
- compassos 86-89) rarefação; canivete e molto vibrato.- compassos 90- 99) diálogo entre a quinta gravação e o slide percussivo; uma marcha; ideia de criar uma ruptura longa; questionamento em relação às durações de eventos: até quando se pode considerar um corte? Um corte longo obrigatoriamente se transforma numa sessão?
- compassos 100- 102) continuidade e linearidade unidirecional (mão direita) sincronizada com um material que internamente é linear, mas que progressivamente demonstra um contorno angular.
- compassos 103-106) fusão da marcha (90-99) com a unidirecionalidade de um dos materiais dos compassos 100-102.
- compassos 107-110) mesmo questionamento dos compassos 90-99; diminuí a duração, mas criei um gesto mais contínuo e direcional, que poderia tender à criar uma sensação de tédio-previsibilidade do material e por isso parecer que durou mais tempo do que realmente durou. Questionamento não resolvido…
- compassos 110-126) fusão de idéias e materiais diferentes apresentados anteriormente em toda a peça, novos questionamentos em relação à memória e sensação do tempo: cortes contínuos, simétricos, periódicos e assemelhados podem ou não ser percebidos como um material único? Como um material unidirecional, linear, contínuo pode ser transformado em um material multidirecional, não-linear e descontínuo sem lançar mão de “truques de composição” conhecidos, tais quais cortar ou fazer transições sutis? Possibilidade parcial: fragmentações num micro-nível e sobreposição de fragmentações diferentes.
- compasso 127-141) material linear, contínuo e direcional assume algumas características timbrísticas do material de ruptura; já o material de ruptura perde energia e assume características do material direcional e linear do início da peça.
Lidar com energias que se anulam: a) a direcionalidade da última sessão b) o estado físico e emocional do intérprete. Levar a direcionalidade em oposição à energia corporal: a peça está no fim e requer cada vez mais energia para acabar, mas fazendo um gesto “empobrecido”, repetitivo, demorado, rumo ao “fim” do instrumento (seguindo a direcionalidade imposta, não há mais para onde ir); o intérprete provavelmente está cansado, com o menor nível de energia desde o começo da peça, talvez entediado de repetir o mesmo gesto e desejando chegar logo ao fim, mas tem de continuar se esforçando até atingir o ponto final do caminho.
Agradeço imensamente Mario Del Nunzio, por todo o conhecimento transmitido durante o processo deste trabalho, pela paciência, pela confiança e pela amizade.
(Texto de Fernanda Aoki Navarro)
